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LEMBRANÇAS DO ZAMPA

panda e zampa

Atenção ao mestre durante um final de semana de Porsche Cup em 2005. Foto, presumo, do camarada Miguel Costa Júnior.

Poucos personagens do automobilismo brasileiro foram tão queridos quanto o jornalista Marcus Zamponi, o Zampa. Desde o anúncio de sua morte, na noite de ontem, vários colegas escreveram suas lembranças, reproduziram histórias ou simplesmente manifestaram sua saudade nas redes sociais. Pilotos, ex-pilotos, dirigentes, mecânicos, construtores e preparadores de carros de corrida também o fizeram. Meu camarada e “companheiro de equipe” Alexander Grunwald observou bem: “O cara morre e dezenas de pessoas desandam a contar histórias hilariantes sobre ele. Não é para qualquer um”.

Não é mesmo. Todo mundo que viveu o automobilismo brasileiro nas últimas quatro décadas conhecia Marcus Zamponi. Pessoalmente ou por meio de seus textos inteligentes, analíticos, viscerais, emocionados e, muitas vezes, absolutamente hilários. Foi por meio deles que eu, garoto mal entrado na adolescência, “conheci” o Zampa no início da década de 1980. Naquela época, o fã de automobilismo que morasse em Santos, como era meu caso, acompanhava corridas pela TV, pelo rádio, pelos jornais e pela imprensa especializada – na época, composta pelas revistas mensais Quatro Rodas, Auto Esporte e Motor 3 e pelo jornal “devezenquandário” Auto Motor Esporte. Zampa era editor na Auto Esporte e escrevia no Auto Motor. Depois, passei a comprar também a Motoshow, a que melhor cobria o motociclismo de competição.

Aos 12 ou 13 anos, eu já prestava atenção nos nomes dos autores dos textos. E, invariavelmente, os que levavam a assinatura “Marcus Zamponi” ou “MZ” eram os que eu mais apreciava. Zampa era um personagem espetacular: numa época em que a superexposição dos tempos atuais era algo simplesmente inimaginável, ele era mencionado e admirado pelos seus pares de tal forma que os meros leitores, como eu, se sentiam íntimos dele – e percebiam se tratar de um adorável porra-louca. Não é à toa que, quando eu tinha 18 anos e prestava vestibular para jornalismo, meus inspiradores chamavam-se Marcus Zamponi, Otávio “Pena Branca” Ribeiro (o maior repórter policial que o Brasil teve) e Tarso de Castro (outro “porra-louca”, inteligente e brilhante).

Conheci o Zampa no início de 1989, quando me foi dada a missão de ir à redação da Auto Esporte para pegar algum material qualquer. O primeiro contato já me fez dar algumas risadas, mas nesse dia Zampa estava atarefado e parecia muito sério (por incrível que pareça). Alto, bastante gordo, barbudo, fumante e comilão, Zampa entremeava todas suas frases com um “merrrmão” dito com o mais autêntico sotaque carioca. Pelas características físicas, uma versão branca do cantor Barry White. Pela voz, Zampa poderia tranquilamente se juntar a Tim Maia como um dos grandes do soul carioca dos anos 1970, caso tivesse se dedicado ao canto.

Meu convívio profissional com o Zampa se acentuou a partir de 1991, quando comecei a trabalhar no Jornal da Tarde. E aí comecei a ouvir mais as histórias dele, a vivenciar algumas e a admirar cada vez mais o jornalista e a pessoa. Zampa adorava pregar peças nos outros, e às vezes as brincadeiras eram pesadas. Nos tempos da Auto Esporte, trancou uma secretária baixinha em um armário. Aprontou tantas com a mulher que ela não aguentou mais que um par de meses na editora. Era fácil ficar puto com algumas de suas brincadeiras – e igualmente fácil esquecer tudo e voltar às boas com ele. Um doce de pessoa.

Zampa morava na Inglaterra no início dos anos 1970 – foi nessa época que ele começou a trabalhar como jornalista, sendo correspondente da Auto Esporte, e conviveu com figuras como estas aqui. Dividia um apartamento com amigos brasileiros e, antes de conseguir emprego na March, ganhava uma merreca trabalhando em um restaurante. Carne bovina era coisa caríssima na Inglaterra dos anos 1970 e, um belo dia, Zampa não teve dúvidas em aproveitar uma ocasião propícia para “expropriar” alguns bifes do congelador do restaurante e levar para casa. Mas precisava escondê-los em algum lugar onde depois pudesse pegá-los e ir embora. Colocou tudo em um saco plástico e enfiou o “produto do roubo” em um banheiro, num buraco atrás de uma privada. Na hora de sair, fingiu que ia usar o tal banheiro, enfiou o saco de carne por dentro das calças e foi caminhando em direção ao metrô para ir para casa.

Tudo parecia estar correndo dentro do previsto. Mas aí, de pé no vagão do metrô, Zampa percebeu a expressão de horror e espanto do homem sentado no banco à sua frente. Olhou para baixo e viu as calças ensopadas de sangue. Não se fez de rogado: foi calmamente para casa, preparou o jantar e só depois da refeição contou aos colegas de apartamento o caminho que aquela saborosa carne havia percorrido antes de chegar ao estômago de cada um.

Uma outra história aconteceu em 1992 ou 1993, durante um almoço de apresentação da Mil Milhas Brasileiras. Eu e outros jornalistas dividíamos a mesa com o Zampa quando se aproximou de nós o lendário Eloy Gogliano, presidente do Centauro Motor Clube e já com quase 80 anos de idade. Como bom anfitrião, Eloy trocou algumas palavras conosco e se afastou em direção a outro grupo. De repente, Zampa faz uma cara de espanto e fala para nós, em volume não muito discreto: “Cara, olha o pau do Eloy!”. Ficamos tão desconcertados que, após alguns segundos em silêncio, Zampa repetiu e acrescentou: “Olha o pau do Eloy! Merrmão, olha o volume no meio das pernas dele!”. Coube ao colega Marco Antônio Catai, já morrendo de rir, o esclarecimento: “Zampa, aquilo é uma fralda geriátrica… Deixa o velho em paz!”

Anos mais tarde, em 2007, aconteceu o diálogo relatado neste post. Eu estava prestes a completar 39 anos, já tinha quase 20 de profissão, e me emocionei ao perceber o que havia acontecido: o Zampa, quase um ídolo da minha juventude, havia me procurado para trocarmos ideias. Acho que foi nesse dia que falei ao Zampa de sua importância para mim, e de quem eram seus companheiros como “meus inspiradores jornalísticos”. Sua reação foi típica: “Ih, merrrmão… Vi muito pó entrar nas narinas desses dois… E haxixe também…”. Fiz questão de repetir a reverência pessoalmente naquele que seria nosso último encontro, em junho de 2010, um pouco antes de o Zampa se mudar para São José do Rio Preto.

Praticamente todos os jornalistas sempre cobraram do Zampa que escrevesse um livro sobre automobilismo, e parece que boa parte dele já estava escrito. Mas, de ontem para hoje, uma imensa quantidade de jornalistas (eu inclusive) retirou do baú as histórias do e com o Zampa. No fim, fomos nós quem escrevemos, cada um em seu espaço, um livro sobre ele. Talvez tenha sido a última peça que o Zampa pregou nos amigos. Ótimo que tenha sido assim. Marcus Zamponi é, sim, um personagem digno de um livro.

Obrigado por tudo, Zampa. Já estou com saudades.

DOIS SUECOS*

 

nilsson-peterson

Gunnar Nilsson (à esquerda) e Ronnie Peterson em foto de 1977.

Peterson

Peterson e o Tyrrell de seis rodas no GP da Bélgica de 1977.

Nilsson

 

Gunnar Nilsson à frente de Alex Dias Ribeiro nos treinos para o GP da Bélgica de 1977.

 

*Texto publicado originalmente em 21 de maio de 2004 e reproduzido abaixo com pequenas alterações. É uma das lembranças que tenho do jornalista Marcus Zamponi, falecido ontem.

“Pô, Panda. Muito legal. Tremi na base, valeu. Que saudades…”. Foi com estas palavras que Marcus Zamponi, um dos mais vividos e competentes jornalistas brasileiros de automobilismo, agradeceu o presente que lhe enviei por e-mail: a foto que abre esta coluna, gentilmente enviada pelo leitor Sérgio Pires Albuquerque. Ela mostra os dois melhores pilotos suecos que já passaram pela Fórmula 1: Ronnie Peterson (o loiro da direita) e Gunnar Nilsson (o cara de cabelo encaracolado à esquerda).

Zampa, como todos do meio chamamos o sr. Marcus Zamponi, tem bons motivos para se arrepiar ao ver essa foto. No começo da década de 1970, ele morava na Inglaterra e trabalhava na March, que tinha entre seus proprietários o sr. Max Mosley, hoje presidente da FIA. Peterson, já um piloto estabelecido, era um verdadeiro ídolo para o Zampa, devido ao talento que demonstrou durante a temporada brasileira de Fórmula 2, em 1971. Na F 1, Peterson correu pela March entre 1970 e 1972, e também em 1976. Lembro até hoje do dia em que o Zampa me contou: “Cara, fiquei arrepiado no dia em que o Peterson me cumprimentou com um ‘Hi, Zampa!’. Fiquei uma semana orgulhoso…”.

Zampa ainda trabalhava na March em 1975, quando Nilsson e o brasileiro Alex Dias Ribeiro eram pilotos da equipe oficial da March no Campeonato Inglês de Fórmula 3. O relacionamento entre os dois pilotos era até harmonioso, principalmente considerando a competitividade da categoria e o fato de serem, no final das contas, rivais em busca de um lugar ao sol na F 1. Zampa conta (nunca consegui descobrir se a sério ou fazendo blague) que o religioso Alex presenteava seus mecânicos com exemplares da Bíblia, enquanto Nilsson dava a eles as mais, digamos assim, explícitas revistas eróticas suecas. Não creio que tenha algo a ver, mas o fato é que o campeonato inglês de F 3 de 1975 terminou com Nilsson campeão e Alex vice…

Peterson competiu na F 1 durante oito anos. Conseguiu dez vitórias e dois vice-campeonatos. Gunnar Nilsson disputou apenas duas temporadas (as de 1976 e 1977) e venceu uma corrida. Foram dois dos melhores pilotos que já passaram pela Fórmula 1. Para alguns fãs de hoje, talvez pareça exagero definir assim dois pilotos com tão modestos números para os padrões atuais. Paciência. Em vez de justificar, prefiro lembrar a história de um famoso músico (Louis Armstrong, creio eu) que certa vez deu a seguinte resposta a alguém que lhe perguntou como diferenciar o “bom” do “mau” jazz: “Se eu preciso explicar, é sinal de que você nunca vai entender”.

Nilsson testou um Williams no final de 1975 e estreou na F 1 em 1976 pela Lotus, substituindo justamente a Peterson. Este já era um piloto consagrado mas vivia uma fase negativa em função dos maus carros que vinha pilotando. Peterson disputou o GP do Brasil de 1976 (o primeiro daquele ano) ainda pela Lotus, mas na corrida seguinte (África do Sul) passou para a March, que havia deixado no final de 1972… para correr na Lotus.

Em seu terceiro GP, na Espanha, Nilsson conseguiu o 3º lugar – colocação que repetiria alguns meses mais tarde, na Áustria. Ótimos resultados para o carro que a Lotus tinha naquele ano. A última corrida, no Japão, foi vencida por Mario Andretti, companheiro de Nilsson na Lotus e eleito primeiro piloto pelo dono da equipe, Colin Chapman. Peterson, por sua vez, acumulou ótimos desempenhos que quase sempre terminavam quando o March quebrava. No GP da Itália, o March resistiu e Peterson venceu. Poucos dias antes, o sueco havia assinado contrato para correr pela Tyrrell em 1977.

Só que a temporada de 1977 seria uma das mais infelizes para Peterson. Os Tyrrell P34 de seis rodas já não tinham a competitividade do ano anterior e, comentava-se, o estilo “selvagem” de Peterson era totalmente inadequado a um carro tão complexo. Nilsson, por sua vez, percebeu rapidamente que dificilmente teria alguma chance de superar Andretti na Lotus. Isso ficou provado após o warm-up do primeiro GP, na Argentina: tanto o carro titular de Andretti quando o carro reserva estavam sem condições de correr, e Colin Chapman não teve dúvidas em entregar ao ítalo-estadunidense o carro de Nilsson, que ficou fora da corrida.

Para os dois pilotos suecos, o melhor momento de 1977 aconteceu no GP da Bélgica, em Zolder, disputado sob chuva. Nilsson venceu e Peterson terminou em 3º lugar. Dois suecos no pódio! Nilsson ainda conseguiria alguns bons resultados, o último deles um 3º lugar na Inglaterra, mas teve problemas mecânicos ou acidentes em todas as demais corridas. Terminou o campeonato em 8º lugar, com 20 pontos, enquanto Andretti terminava em 3º, com 47 pontos e quatro vitórias. Para Peterson, um ano para esquecer: somente 7 pontos, quatro deles marcados com o 3º lugar em Zolder.

No final do ano, Nilsson saiu da Lotus e juntou-se a uma nova equipe que estava sendo formada pelo banqueiro italiano Franco Ambrozio e por um grupo de executivos e técnicos oriundos da Shadow: Alan Rees, Jackie Oliver, Dave Wass e Tony Southgate. O nome dessa nova equipe foi formado com as iniciais dos sobrenomes desses senhores: Arows, depois modificado para Arrows, já que a repetição do “R” faria a palavra significar “flecha” em inglês. Nilsson correria junto com Riccardo Patrese, mas sequer chegou a sentar-se em um Arrows. Ainda no final de 1977, ele descobriu que estava com câncer. Passou então a dedicar-se ao tratamento da doença, com expectativas de curar-se e voltar a correr ainda em 1978.

O lugar aberto por Nilsson na Lotus foi ocupado justamente por Peterson, invertendo os movimentos que os dois suecos haviam feito no começo de 1976. A temporada na Tyrrell havia sido tão negativa para sua imagem que ele só conseguiu a vaga depois de assegurar à Lotus a quantia de 300.000 libras – na época, uma cifra estronômica – paga pela Polar, uma fábrica sueca de trailers. Chapman não deu qualquer ilusão a Peterson: o primeiro piloto da equipe seria Andretti, que receberia todas as atenções para lutar pelo título.

Enquanto Nilsson lutava contra o câncer, Peterson provava que seu talento continuava intacto. Venceu duas corridas, fez pole positions, mostrou claramente ter condições de superar Andretti. Mas não podia fazer isso porque seu contrato impedia. Peterson morreria no dia 11 de setembro em conseqüência dos ferimentos sofridos no acidente ocorrido logo após a largada do GP da Itália, ocorrido um dia antes.

Gunnar Nilsson, careca e bastante debilitado, compareceu aos funerais do compatriota. Menos de 40 dias depois, no dia 20 de outubro, ele morreria em conseqüência do câncer. Descobriu-se então que Nilsson doara praticamente todos os seus bens ao hospital de Londres onde fazia os procedimentos médicos de tratamento da doença – segundo alguns, teria sido a maneira que encontrou para pagar a conta depois que o dinheiro acabou. Terminou assim, de maneira abrupta e trágica, a grande fase dos pilotos suecos na Fórmula 1. Antes de Peterson e Nilsson, apenas um outro piloto daquele país havia conseguido vencer na F 1: Joakim Bonnier, outro grande piloto, morto em um acidente na 24 Horas de Le Mans de 1972.

As mortes de Peterson e Nilsson abalaram profundamente o interesse dos suecos pela F 1. O GP da Suécia de 1979, que pelo calendário da FIA aconteceria no 16 de junho, foi cancelado semanas antes dessa data, por falta de patrocinadores. Outros suecos passaram pela Fórmula 1 nos anos seguintes. Alguns bons, mas nenhum com o brilho de Peterson e Nilsson.

TCHAU, ZAMPA

Zamponi

Uma notícia muito triste para todos nós, que gostamos de automobilismo: a morte do jornalista Marcus Zamponi, o “Zampa”, em São José do Rio Preto.

Quando eu tinha 18 anos, Zampa era um daqueles jornalistas que me inspiravam, daqueles que me faziam pensar “Quero ser que nem esse cara” (os outros eram Tarso de Castro e Otávio “Pena Branca” Ribeiro, ambos já falecidos). Quando editor da revista Grid, assinamos juntos uma matéria sobre Ronnie Peterson – o que, para mim, mal passado do primeiro quarto de século de vida, foi uma grande honra.  Felizmente, tudo isto foi dito a ele ao longo de nosso convívio.

Ter conhecido o Zampa, privado de seu convívio profissional e estar presente nas mesmas viagens e coberturas que ele foi uma honra profissional para mim.

Bom descanso, Zampão. Você foi, e sempre será, um dos meus inspiradores.

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